Simples assim.
Desde ano passado e até os primeiros meses desse ano, eu vivia preocupada após voltar da minha licença maternidade por não estar “demonstrando” o mesmo nível de foco e produtividade do que antes. Era óbvio que eu precisava de tempo para acompanhar meus projetos, que as entregas seriam diferentes e que ter uma criança em casa muda toda a dinâmica e rotina.
A maternidade faz a gente se sentir “lerda” em certos aspectos, mas com razão! Porque ela muda nosso cérebro e leva tempo até acostumar.
Porém, de uns tempos pra cá e depois de escangalhar minha saúde mental sentindo que eu estava regredindo eu percebi que com o mínimo de apoio e ajuda eu destravei TANTA coisa e me senti tão mais empoderada, que me senti culpada por ter cobrado tanto de mim quando já estou operando na capacidade máxima.
Então, como este mês estou participando do BEDA e maternidade é um tema que queria tratar aqui, resolvi meter umas palavras aqui sobre esse assunto.
Estamos em 2026, os direitos femininos evoluídos (em comparação com uns piscares de olhos atrás), estamos na era da modernidade, da – abre aspas- livre escolha – fecha aspas…Embora o cardápio ainda não tenha lá tantas opções ideais para todas as mães que querem crescer na carreira sem sentir que estão abandonando os filhos ou perder a sanidade dando conta de tudo com eles em casa.
Pior do que isso: muitas mulheres são descartadas sem mal terem superado o pós-parto. Tem lugar que não dá nem chance, nem espaço para quem precisa claramente se recuperar da maior mudança de sua vida.

Ironicamente, quando bem coordenada e respeitada, é justamente essa mudança que mais traz resultados para os negócios, no curto e longo prazo: dê a uma mãe os recursos físicos e financeiros necessários para prosperar na sua atividade profissional e ainda criar e participar ativamente da vida dos filhos para criar cidadãos bem educados, saudáveis e – na linguagem capitalista – produtivos para o mercado, e o pote de ouro está garantido!
Eu já valorizava pra cacete os atributos tanto das mães que continuam trabalhando quanto daquelas que pausam a carreira para depois voltar ao mercado de trabalho. Porque as coisas que acontecem e que se aprendem na maternidade não devem ser superadas apenas por letras a mais preenchidas no currículo.
A maternidade – ainda mais quando é solo ou sem rede de apoio – é um MBA para a vida pessoal e, sim, também para a profissional. E embora a participação feminina na primeira infância dos filhos venha acompanhada de pensamentos como “hora de dar um tempo”, “a produtividade vai cair”, “ela não consegue mais focar no trabalho”, entre outros…Hoje eu vim te explicar o porquê a gente tem que derrubar esses argumentos:
1. Ao voltar ao trabalho pós licença maternidade, um novo mundo de produtividade se abre
Vamos ser sinceros aqui e lembrar de como era muitas vezes a rotina pré pandemia de muitos escritórios tradicionais por aí:
A pessoa chega no trabalho, conversa ou fofoca com os colegas, abre rede social ou mexe no telefone, pega café, toma café, fofoca, digita 5 mensagens, olha email, checa agenda, participa de uma ou duas reuniões, marca outras reuniões para preencher o calendário…Opa! Hora do almoço!
Volta do almoço. Conversa mais, pega café, senta na mesa, conversa com colega de outro departamento que encontrou, volta aos emails ou burocracias corporativas, participa de alguma reunião, abre umas planilhas e arquivos e se dá conta de que vai ter que ficar até um pouco mais tarde para focar numa entrega. Mas tá tudo bem, porque tem outros colegas ficando até mais tarde… Ok, terminou a única tarefa pendente do dia. Desaparece e vai para casa.
Não que o cenário acima seja ruim, porque na verdade é saudável ter pausas, momentos sociais, etc.
Mas a diferença entra no tipo de foco que será dado em cada microintervalo de tempo que nos é dado: considera que a pessoa que tem um filho em casa não sossega desde que abre o olho de manhã.
É a checagem de emails e mensagens enquanto prepara o café da manhã, a soneca do bebê que pode durar 15 minutos ou 1 hora, o momento em que o parceiro ou a rede de apoio ficam com a criança, os dias ou períodos em que a criança fica numa escolinha…Cada segundo é tão valioso que no momento em que se senta numa cadeira para trabalhar sem interrupções, é para entregar. Com sangue nos olhos (que as vezes encaram o celular para não perder a hora do lanche ou ver se não mandaram nada da creche).
Eu hoje em dia lembro o tanto de ócio que tive pré-filho durante o dia de trabalho e penso: meldels, o que eu fazia com tanto tempo?!
2. Foco dinâmico e multitarefa no modo turbo
Vi num post de Instagram esses dias o seguinte: uma mãe é interrompida, em média, a cada 3 minutos. Isso enquanto tem que lembrar de absolutamente todos os passos do dia e dos projetos que está cuidando. Imagina todo o TRAMPO que nosso cérebro precisa fazer pra voltar ao raciocínio e continuar de onde paramos com o que quer que seja.
Eu mesma já me vi fazendo reuniões complexas com times de desenvolvimento em meio a um caos na cozinha cortando frutas e oferecendo pra um bebê que corria para lá e para cá. Sem contar o gasto de energia amamentando e/ou tirando leite numa salinha isolada do escritório. É um custo energético absurdo, e ainda assim ficamos de pé para a próxima demanda.
E, sem querer trazer comparações demais aqui, mas todo mundo aqui já conheceu ou conhece pessoas de tudo quanto é gênero, sem filhos e sem esse tipo de bloqueio mental a todo o momento e ainda assim falha em anotar as coisas, falha em entregar, lembrar de prazos ou até mesmo em concluir uma linha de pensamento numa mesma conversa.
Cada pessoa tem suas limitações e especialidades. Mas falo isso para demonstrar a dimensão da capacidade cognitiva que é atingida quando se adiciona a maternidade nesse mix.
3. Estrutura e assertividade deveriam ser REGRA
Só quem já viu o quanto o tempo é PRECIOSO quando a gente tem que lidar com janelas de sono, rotina alimentar, organização da vida e da casa sabe bem o quanto depois da maternidade/ paternidade não dá para perder tempo estagnado em projeto ou em múltiplas reuniões e discussões redundantes.
Por isso, uma das coisas que mais identifiquei nos últimos tempos é a VONTADE e também capacidade de ir direto ao ponto e entrar em ação sem enrolar e perder o tempo de ninguém.
É a proatividade de encarar os assuntos travados e falar: se algo precisa ser feito e não foi feito, por que não foi feito? Dá pra fazer isso agora e resolver?
Ou de olhar pra a agenda antes de marcar qualquer reunião e pensar: será que eu preciso de UMA HORA pra falar disso, ou dá pra isso ser um email ou mensagem?
4. Além disso, os atributos de liderança ficam muito mais afiados
Pois é. Quem diria que GERAR E CRIAR PESSOAS te ajuda a liderar e a lidar com elas, não é mesmo?
Ter filhos gera uma autonomia absurda pois é preciso disso para sobreviver tanto para si quanto para todos em sua volta. É ver a bagunça física e mental das duas vidas – a profissional e pessoal – e dar conta de organizar as tarefas e dividir os pedaços de bolo para ninguém sair da mesa insatisfeito.
Ainda assim, uma porcentagem bem alta das empresas mundo afora continuam tendo apenas homens como maioria nos quadros de diretoria. E tudo isso mesmo quando a mulher que se torna mãe, quando consegue se dedicar à sua função de forma plena, aprimora sua capacidade de:
- Coordenar e dividir o trabalho em equipe
- Mentorar, aconselhar e dar suporte para colegas júniores ou que estejam com alguma dificuldade
- Ver o mundo e as pessoas com mais empatia (ainda mais, para quem já era empática) e gentileza. Apaziguar situações e enxergar coisas que não via.
- Comunicar limites de forma clara e sem perder a razão
- Resolver rapidamente problemas e improvisar
- Acolher quem precisa ser acolhido e ouvido
- Tomar decisões rapidamente e de forma eficaz
5. E tudo sem contar o poder auto-regulação emocional!
Não que isso não seja importante para QUALQUER PROFISSIONAL. Mas a gente sabe que já é difícil ver adultos que saibam administrar muito bem as emoções e frustrações – e aumente um pontinho para o fato de sermos latinos, sangue quente e muito expressivos tanto para o lado positivo quanto negativo no ambiente de trabalho.
Quando a gente está em fase de educar um filho (de preferência, com boas habilidades emocionais para daqui pra frente quebrar ciclos geracionais), é preciso aprender na marra a segurar a marimba e a sorrir para a webcam enquanto alguém fala ou comete alguma grande cagada que afetará o time inteiro. Ou a reagir de forma neutra a notícias inesperadas e ainda assim dialogar para encontrar uma solução. Ou a sorrir e participar ativamente de conversas de negócios com o coração partido de saudades da cria.
Por experiência própria, afirmo que com o tempo fica cada vez mais fácil ser menos reativa a situações frustrantes, e a ver problemas de trabalho como eles realmente devem ser vistos: pepinos corporativos que não matarão ninguém (a não ser que você seja um médico com um corpo humano aberto na sua frente prestes a fazer uma cirurgia e, nesse caso, por favor pare de ler esse post e pegue o bisturi!).
Enfim, entreguem-nos o Hexa, digo, o bastão
Diante de tanta vantagem, por que carolhos tem tanta empresa que deixa de reconhecer e promover as mamacitas??? Sério, se me permite representar uma frustração por todas aqui, eu digo: que saco que é a gente ter que escancarar as evidências e encontrar formas e mais formas de se provar.
Vindo do contexto que venho em relação a carreira, eu sempre vou motivar todo mundo a vender seu peixe, ir atrás da recompensa, PEDIR a bendita promoção! Mas eu penso que nesse caso essa carga vem com peso extra sobre mulheres que são mães: além de já fazer tudo o que faz com primor, mostre que ainda é produtiva, mostre que ainda entrega, etc. e mostre mais do que outros colegas para não ser deixada para trás! Sendo que a maternidade por si só impulsiona milhões de habilidades interpessoais importantíssimas, ela deveria impulsionar a visibilidade dessas profissionais em vez de suprimir.
É por isso que eu já comentei bem abertamente em um vídeo o quanto mesmo as pessoas que precisaram parar de trabalhar para se dedicar aos cuidados em casa não devem abaixar a cabeça para ninguém.
BOM, eu espero que, apesar de ter sido escrito no auge da exaustão num domingo à noite sendo que os desafios que eu passo nem são tão grandes comparados ao de outras mães por aí, esse texto motive a gente a valorizar mais as nossas capacidades em vez de alimentar a síndrome de impostora.
Claro que nem tudo vai sair perfeito. Nem toda mulher e mãe que tem uma carreira necessariamente deve ser passada para frente na linha de promoção “apenas por isso”. E se isso acontecesse, muitos diriam: UAU, que absurdo essa cota!
Pois considere que na maioria das vezes o contrário – ou seja: deixá-las de lado – acontece justamente pelo mesmo motivo, e o pior: sem explicações. Mesmo quando a performance continua intacta ou, em muitos casos, superior em comparação ao ponto de partida e desafios enfrentados dentro e fora das paredes corporativas.
E, vamos considerar uma coisa, se essa performance está mais difícil de alcançar, não é apenas papel da mulher ou do núcleo familiar mas sim da sociedade e do Estado prover amparo operacional, financeiro e emocional, se preciso, para que ela possa pavimentar sua trajetória profissional sem tantos buracos no caminho.
Quem concorda, respira.
Esse post que mais parece um chamado para se juntar a uma militância é uma reflexão que trago durante o BEDA (Blog Every Day in August) do Entreblogs. Se você nunca ouviu falar em BEDA ou não conhece essa comunidade…Também não sabe o que está perdendo!
- [x]Remédio
- [x]Passeio ao ar livre
- └─ Uma voltinha no quarteirão com o baby no colo conta?
- [x]Leitura
- └─ Nos últimos 7% de Ressurreição (quaseeeee)
- [x]Memória
- └─ Francisco e eu cozinhando juntos os lanchinhos dele da semana
- [x]Compromisso do dia
- └─ Limpeza geral em casa
- [x]Desafio enfrentado do dia
- └─ Mal-estar e cansaço por conta do piriri


2 comentários
A minha opção foi não ter filhos. Não gosto de criança. E isso foi motivo de discussão em família. Tinha algo errado comigo. E quando eu disse que preferia ter cães a uma criança, quase fui mandada para uma clínica psiquiatrica. A culpa foi do excesso de estudos. Enfim, na minha área de trabalho, uma colega ficou grávida e ficou com receio de ser mandada embora. Ela foi ao RH e expôs a novidade e ficou feliz em saber que teria o suporte respeitado e eu fiquei um pouco aflita por saber que é comum a demissão após a volta. Me reuni com as colegas e planejamos mantê-la ativa, passando relatórios a respeito de tudo que acontecia. Ao voltar, foi mais fácil para ela retomar o trabalho. Não foi demitida e ela não teve muitas dificuldades em se adaptar, mas sempre surgia um comentário infeliz, algo do tipo: nossa, como você consegue vir trabalhar e deixar o filho em casa, com outra pessoa? Eu rugi. Era o tipo de pergunta que o parceiro dela não ouviria. Enfim, só consigo imaginar que não seja fácil, mesmo em pleno século XXI. Ainda há um longo caminho pela frente até que mulheres sejam realmente respeitadas pelo ambiente de trabalho e por outras mulheres. Eu tento fazer a minha parte, respeitando a opção de outras mulheres (mesmo quando se sente a vontade para questionar a minha decisão de vida) e não ser mais uma a criar problema.
Ótimo post… boa semana!
Mulheres já são deixadas de lado nas empresas só pela possibilidade de ter filhos. Imagina depois de tê-los.
Eu acredito muito na motivação que vem com a maternidade e em como isso poderia ser aproveitado e reconhecido. A gente precisa reestruturar a sociedade para colocar os homens como também responsáveis pelos filhos porque enquanto isso parecer um trabalho exclusivo da mulher, vai ser desvalorizado. Se os homens cuidassem das crianças, seriam recompensados por tudo o que vc citou no post.
Adorei seu manifesto!
Um beijo